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Todo príncipe é um golpe bb!

Atualizado: 20 de abr.

No início de fevereiro, a internet pifou com o lançamento do documentário "O Golpista do Tinder". A produção conta a história de um otário "sem eira nem beira" chamado Shimon Hayud, que - condenado por falsidade ideológica após aplicar seus primeiros golpes - saiu fugido dos cafundós de Israel, se passou por "Simon Leviev"- um filho que não existe de um magnata dos diamantes - e aplicou golpes em mulheres em diversos países da Europa, enquanto vivia uma vida de sheik com o dinheiro delas.


As opiniões sobre as histórias de três mulheres vítimas de estelionato emocional, praticado pelo - literalmente - melhor golpista do mundo na área, se dividiram entre:

1) a preguiça intelectual dos que acreditam que as vítimas mereceram o que aconteceu (pois mulheres são e sempre serão golpistas interessadas no dinheiro dos homens);

2) a falta de repertório dos que não entenderam COMO as vítimas caíram nesses golpes (porque "eu no lugar dela jamais teria acreditado");

3) o desespero de mulheres que se viram nas vítimas e pensaram que, no lugar delas, teriam feito as mesmas coisas.




São inúmeros os fatores que tornam a especialidade do "golpista do Tinder" possível, a começar pelo que Valeska Zanello chama de "dispositivo amoroso". O conceito busca nomear o processo de comercialização do afeto de mulheres em um mercado de "livre concorrência".


Se mulheres são socializadas para depender da aprovação dos homens em todas as suas escolhas, é natural que durante a vida não busquem saber quem são, do que gostam ou o que realmente querem.


Uma mulher que é socializada para: 1) não ver - nem desenvolver - nada de interessante em si mesma; 2) pensar que a única possibilidade de sua vida se tornar interessante para a sociedade é obtendo a aprovação de um homem que seja realmente interessante; não irá se incomodar ou perceber como uma red flag o fato de um homem falar apenas sobre si em um encontro.


Muitas de nós, embora tenhamos consciência sobre a história da opressão da classe sexual feminina e a dinâmica das relações de gênero, ainda estamos condicionadas a crer que não somos capazes de realizar coisa alguma na vida sem a ajuda, a proteção ou a permissão de um homem. É o caso, por exemplo, do enriquecimento: poucas mulheres realmente acreditam que são capazes de prosperar financeiramente e proporcionar conforto ou luxos a si mesmas, sem a contribuição de um homem em seu desenvolvimento profissional - o que faz todo o sentido considerando a estrutura capitalista, mas essa é outra conversa.


É comum também que tentemos compensar nossas independências, forjando dependências. Por exemplo: se você tem mais dinheiro ou é mais inteligente que seu companheiro, provavelmente sente um impulso incontrolável para demonstrar alguma dependência dele na hora de abrir um pote ou virar um galão de água. Fazendo um homem se sentir útil, ou demonstrando que dependemos dele para alguma coisa, nos livramos da culpa por sermos independentes ou boas, onde supostamente não deveríamos ser.


O livro "Complexo de Cinderela" trata exclusivamente dessa temática de forma bastante descritiva e profunda. Ele foi o tema do Clube do Livro #3 da LIVRARISTA e recentemente transformado em 6 episódios de podcast, com mais de 12 horas de conteúdo. Para acessar, clique AQUI.




Outro ponto interessante a ser observado é: o golpista só chegou onde chegou porque ninguém se importa com as mulheres. Nos países onde Shimon aplicava os golpes, os casos eram compreendidos como fraudes sem importância. Uma vez que havia uma pessoa responsável pelas dívidas, e não houve fraude na documentação, ninguém se importa e nem prevê a violência psicológica que aquela vítima sofreu para que concordasse em assinar os documentos. Este fator, por si só, deveria ser o suficiente para configurar a fraude e responsabilizar o verdadeiro autor.


No Brasil, desde julho de 2021, temos o crime de Violência Psicológica Contra a Mulher, que prevê manipulações praticadas por homens contra mulheres para obter benefícios (sejam eles sociais, sexuais ou financeiros). Embora seja considerado um crime de menor potencial ofensivo, a tipificação desse tipo de conduta é um marco no reconhecimento da violência sistemática e estrutural, praticada a nível emocional contra mulheres.


Muitas pessoas argumentam que a violência psicológica causa danos à qualquer vítima e deveria ser criminalizada se praticada contra qualquer pessoa, no entanto, o que devemos considerar é que existe não apenas a predisposição, como também a autorização social, a justificativa e a naturalização quando esse tipo de violência é praticada contra a mulher.


Além disso, é preciso considerar que mulheres vivem violência constante e são convencidas de que somente a proteção de um homem será capaz de cessá-la. Isso nos torna muito mais suscetíveis a manipulações, pois estamos buscando possibilidades de sobrevivência.


Para cada Valeria Calpanchay (mulher que chegou a ir a um encontro com Shimon, mas não se interessou pela performance principesca egocêntrica dele), existem dez Kate Konlin (ex-namorada de Shimon que sabia de todo o seu esquema e o defende mesmo assim, inclusive é amiga dele até hoje). É sobre essa lógica que ele age, contando com a falta de ciência das mulheres sobre as condições psicológicas e emocionais que nos vulnerabilizam.


Se você precisa ser salva por um príncipe, qualquer príncipe será um golpe pra você!



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