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Dua Lipa: a amiga que você precisava ter

Atualizado: 20 de abr.



Destoando do restante das cantoras pop que descem do céu penduradas, fazendo acrobacias, com coreografias que nos fazem pensar em COMO alguém consegue cantar fazendo aquilo, roupas desconfortáveis, palcos cheios e fifi, superefeitos e um milhão de bailarinas, ela vai pro show com o mesmo look que você usa pra ir no barzinho com as suas amigas.


Falando das coreografias, elas tem uma pegada groovy e feliz, nada de ficar se objetificando e fazendo a bunda aparecer mais do que a voz. Também é bastante significativo que boa parte das vezes ela cante parada, com o microfone no suporte. Ela diz: vocês vieram aqui pra me ouvir cantar, eu não preciso ter 36723642 habilidades pra vocês me ouvirem. No meio de tanta merda sexista na cultura pop, ela diz: olha, comigo não vai rolar.


Aparentemente tem dado certo. Segundo aquele saite GOOGLE, ela coleciona até o momento 3 grammys e mais UM MONTE de prêmios.


Mas esse post não é pra ficar comparando a Dua Lipa com as demais cantoras pop, não. Vamos falar sobre as letras das músicas, os clipes e a história que o conjunto conta.


1. New Rules


Na letra ela deixa claro que tem "novas regras". Já começa dizendo que está enlouquecendo, descreve uma relação confusa com um homem manipulador. Ela diz que o amor dela a faz sentir como ninguém mais faz, mas logo depois diz que ele não a ama. Temos aqui o clássico relacionamento abusivo.

Essa relação é muito bem explicada no livro "Amar Para Sobreviver". A mulher numa relação abusiva se vê numa situação de desamparo aprendido e se apega aos pequenos afetos do agressor para que as violências doam menos.


Ainda, conta que tenta seguir em frente mas ele continua a puxando para trás. Coisa que todo abusador faz: mantém a mulher presa naquela relação, como uma refém das vontades dele, e faz da vida dela um inferno, com todo tipo de jogo emocional, caso ela decida sair desse ciclo. Por fim diz que finalmente conseguiu enxergar o padrão e, com isso, se manter mais firme no olhar atento às ações daquele homem. Depois disso, não chama mais ele de "meu amor", apenas repete de forma mais firme as suas novas regras e várias vezes lembra a si mesma de não permitir que ele entre novamente [na sua vida].




Agora sobre o clipe, MEU DEUS... Ela começa um caco. Só quem já passou pela exaustão psíquica de um relacionamento abusivo entende o que aquela cara significa. O corpo mole, a expressão confusa. Ela já não sabe mais o que é real e o que não é. As amigas se responsabilizam por formar a rede de apoio que a lembra de se proteger desse homem podre e se reconstruir.


Várias cenas que mostram uma mulher cuidando da outra remetem a uma corrente. Nesse período, ela vai ficando cada vez melhorzinha, até que renasce.


Passa a se divertir com as amigas como quem diz: eu entendi, "eu voltei BBB", obrigada. Ela anda sobre a água, ela pode tudo, FODA-SE!


Então chega a hora de ela fazer por outra mulher o que antes fizeram por ela: proteger, apoiar e acolher.


As cenas finais onde elas dançam em círculo fecham a "corrente", mostrando direitinho que se todas as mulheres cuidarem da próxima, esse circulo será completo. Ainda, em dois momentos da coreografia em pares, uma segura a outra pela mão para que nenhuma das duas caia. Em outro, duas servem de rede para segurar o corpo de outra.


Por fim, o flaminguinho que antes estava paralisado [retratado como se fosse ela num mundo invertido] sai voando (:



2.IDGAF


Qualquer coisa que eu disser sobre o conjunto dessa obra vai ser pouco.


Desperta, ela coloca o macho no lugar dele.

Já começa falando "meu filho, tenho mais tempo pra esses teus papinho não, vai achar outra".


Continua: sai fora, segui com a minha vida, já chorei, pra mim deu, não preciso de você pra nada não fi. Pode tentar a palhaçada que tu quiser, mas já deu minha cota aqui das tuas babosera, vou explicar o porquê.


"Você pede desculpas, mas agora é tarde, então me poupe, sai fora e cala a boca. Se você acha que eu me importo com você agora, amadoh eu quero mais é que tu se foda."





No clipe dançam várias mulheres vestidas de azul, que tem suas versões opostas vestidas de vermelho. São as duas versões de uma mesma mulher, aquela que antes caia nos papinho e a nova, que é forte e quem pisar no caminho dela vai morrer.


Uma parte da coreografia que me chama a atenção é quando elas fazem um movimento que indica claramente que esse homem ao falar quer deixar ela maluca. Por isso mesmo ela não quer mais ouvir UMA porra.


No fim, a versão azul da um beijo na testa e perdoa a versão vermelha. Ela se reencontra consigo mesma e tudo fica mais harmonizado. A versão vulnerável dela não existe mais.



3. Don't Start Now


Chorando se foi quem um dia fez ela chorar.


Ela reconhece que o jogo virou completamente, a bosta que ela estava ali no New Rules virou adubo pra mulher bem resolvida de Don't Start Now. Ela está tão bem que ainda acha estranho, tem medo de estar feliz e livre.


Deixa claro: olha onde eu vim parar, eu não tô no mesmo lugar onde você me deixou MESMOOO.


Agora, depois das regras que fez pra ela mesma, ela gentilmente sugere algumas regras pra ele:

Se você não quer me ver dançando com outra pessoa

Se você quer acreditar que algo ainda pode me parar


  1. Não apareça

  2. Não saia na rua

  3. Não comece a se importar comigo agora

  4. Segue teu rumo, tu já sabe como...


Continua: "Não era você o cara que tentou me foder quando me largou? Levou um tempo pra eu sobreviver a você, mas eu tô bem melhor do lado de cá."





O clipe já começa com ela agredindo fisicamente este homem, literalmente chutando ele pra fora quando o desesperado vai perseguir ela no rolê onde ela está feliz.


O tempo todo enquanto ela dança na pista escura, o feixe de luz fica bem na cara dela, como se fosse o olhar do stalker que não supera e fica igual um psicopata cuidando da sua vida.


Na festa no salão os olhos dos quadros estão sempre apontando para ela [ou ao menos essa é a impressão que ela tem]. Descendo as escadas ela olha pra todos os lados com medo de estar sendo seguida ou observada. Uma mulher vítima de perseguição vive em constante estado de alerta, hipervigilante, pois sabe que a violência pode vir a qualquer momento.



4. Physical


A letra fala sobre um companheiro com quem ela tem primeiro uma amizade e muita cumplicidade e confiança.


A relação é divertida, mas tá mais pra uma aventura. É o primeiro momento em que ela se abre para se relacionar com outro cara, mas ainda com medo de qualquer envolvimento mais profundo.


Ela ainda está traumatizada, mas disposta a experimentar um outro tipo de relação.




O clipe é cheio de cores, e cada cor é um universo. Cada cor é um sabor novo que ela vai experimentando com essa nova pessoa. As vezes é um céu cheio de nuvens, as vezes eles contam um com o outro para superar alguns obstáculos. Juntos vão dançando em par, de cor em cor.



5. We're good


Mais desperta, mais madura e com os calos do trauma, ela aprendeu a colocar um fim em um relacionamento que ela já sabe que não vai ser bom ou saudável no futuro.


Ela sabe ler os primeiros conflitos e identificar a hora de sair fora.


A letra é claríssima:


Estou em uma ilha, mesmo quando você está perto

Não aguento o silêncio, prefiro ficar sozinha

Acho que está muito claro e simples, demos tudo o que podíamos

É hora de eu dar adeus pela janela

Vamos terminar isso como deveríamos, e dizer que estamos bem

A gente não funciona junto, como dormir e cocaína

Então vamos, pelo menos, concordar e seguir caminhos separados

Não vou te julgar quando você estiver com outra pessoa

Desde que você prometa que não ficará P da vida quando eu fizer isso também

Vamos terminar isso como deveríamos e dizer que estamos bem

Não precisa esconder, vá atrás do que você quer

Isso não será um fardo se não guardamos rancor



O clipe é o Titanic afundando [até onde eu entendo, o lagostO seria o boy da canção].


Percebam: o Titanic afunda com o lagostO dentro, mas ela pega o bote e se salva.


Se esse boy quer continuar preso nessa relação, é problema dele. Ela não ficar num lugar onde sabe que vai se machucar.



6. Levitating


Eis que ela se apaixona de novo.

Aqui o relacionamento com esse novo cara está numa fase divertida, com borboletas no estômago e afins.


Ela convida ele pra conhecer uma nova galáxia. Essa galáxia é o universo dela, onde moram a sua personalidade, os seus gostos, a sua história, os seus sonhos e os seus medos.


A música fala sobre aquele primeiro momento em que o casal está se conhecendo, se gostando, mas ainda vendo no que é que vai dar.


De todo modo, ela parece estar muito feliz na companhia dessa pessoa.


"Eu te quero, você me quer bb. Então só vamo!"





No clipe, eles estão juntos num elevador que vai ninguém sabe pra onde. Mas esse elevador é uma pista de dança.



7. Love Again


Enfim a sorte de um amor tranquilo com gosto de fruta mordida!


A letra é tão forte que eu vou deixar ela mesma dizer:


Nunca pensei que encontraria uma saída

Nunca pensei que escutaria meu coração bater tão alto

Não consigo mais acreditar que restou algo no meu peito

Mas, caramba, você me deixou apaixonada novamente


Eu pensava que era feita de pedra

Eu costumava passar tantas noites sozinha

Eu nunca soube que ainda tinha algo em mim pra dançar

Mas, caramba, você me deixou apaixonada novamente

Me mostre, seu paraíso está bem aqui, amor

Me toque, então saberei que não estou louca

Eu nunca conheci alguém como você

Costumava ter medo do amor, o que posso fazer

Mas, caramba, você me deixou apaixonada novamente

Tantas noites minhas lágrimas caíram mais que a chuva

Com medo de levar meu coração partido ao túmulo

Prefiro morrer a viver em uma tempestade como antes

Mas, caramba, você me deixou apaixonada novamente


Não consigo acreditar, não consigo acreditar

Eu não tenho mais medo





Confesso que nesse clipe eu não entendo o significado de quase nada. Apenas penso que nessa parte que ela está montada no touro mecânico é como se ela estivesse por cima, guiando a própria vida, no controle.


De todo modo, a mensagem da música é clara: ela não está quebrada, ela sobreviveu. Toda a violência que ela viveu não foi o suficiente pra fazer ela desistir de viver e ser feliz!


É normal depois de um grande trauma a gente achar que perdeu a capacidade de ser feliz, dançar e amar de novo. Como ela diz, quando acontece chega a ser difícil de acreditar.


Mas acontece! E é bom demais <3



 


A moral da história toda é: ninguém pode evitar entrar em um relacionamento abusivo, mas se estivermos despertas e unidas, podemos aprender a observar melhor, nos informar mais, identificar as violências e suas causas, e cair fora assim que a nossa intuição nos disser que ali não é lugar pra ficar.



Deus no céu, Dua Lipa na terra.











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