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Com quem podemos contar?

Recentemente estourou um balão de fofoca na internet que dizia que: uma cantora pop (muito famosa por seus posicionamentos fortes contra agressores de mulheres e sobrevivente da violência doméstica - o que é de conhecimento notório) descobriu, grávida, que seu companheiro a havia traído. Os tablóides afirmaram que a amante seria uma estilista que trabalhava para a cantora.


A estilista negou que isso fosse verdade logo após eu ter levado para o Twitter o mesmo questionamento que trago nesse texto - o que me rendeu centenas de comentários e retweets de mulheres dizendo que eu não sabia nada sobre feminismo hehe. Por fim, o autor do boato, que aparentemente era um jornalista fofoqueiro sério da França, voltou atrás e retirou o que disse. A cantora e seu namorado estão juntos e na verdade NADA aconteceu, além de mais uma vez o mundo ter parado por conta de fake news e fofocas sobre mulheres.





Aqui, não vem ao caso quem é a cantora, o companheiro e a estilista, nem se tudo isso é verdade ou mentira, mas sim a interpretação das mulheres sobre o que aconteceu - como foi quando propus a reflexão sobre o clipe da Manu Gavassi com o ex abusivo. Achei estranho ver muita gente tratando a amante como mais uma vítima do cara. Isso não me parece certo.


Inegavelmente, um homem que trai uma mulher, sobrevivente e grávida, é um misógino com 5 passagens de ida para o inferno. Isso nós já sabemos.


Não vamos entrar no mérito de discutir aqui as falas absurdas na linha de "a amante é quem seduz o homem e o cidadão de bem é corrompido por feitiços femininos". Isso é absurdo, e nós já sabemos.


O que chama a atenção é a facilidade com que é aceito o comportamento da mulher que: ciente de que o homem tem um contrato monogâmico com outra mulher, participa conscientemente dessa traição, autorizando o opressor a vitimar sua companheira e sendo agente nesse ato.


Sob os argumentos bobos de que "quem tinha um relacionamento era ele, e não ela" e que "mulheres são socializadas pra isso", defensoras da isenção de responsabilidade da amante sobre a traição revelam um triste conformismo com a rivalidade feminina.


Unindo a ciranda liberal que diz que uma mulher feminista não rivaliza com outra, independente do que ela fizer, pois aparentemente mulheres não tem autonomia para discernir entre certo e errado, à distorção cognitiva que o relacionamento heterossexual exige, deixamos de apontar o óbvio: acreditamos que um contrato monogâmico (obra patriarcal) com um homem tem um peso moral maior do que um contrato ético com nossas iguais.


Em que momento excluímos de forma tão radical a crença na autonomia das mulheres, a ponto de naturalizar e justificar o ato de uma amante, quando qualquer uma de nós tem um telefone celular e pode ligar para qualquer mulher dizendo "olha, o seu namorado/marido/rolo deu umas investidas em mim e acho que é seu direito saber que ele é infiel"?


"Mas ela não vai acreditar": FODA-SE! :)


Muitas vezes, ao denunciar atos de um homem à sua companheira, estamos sujeitas a ouvir as coisas mais absurdas. Eu mesma, anos atrás, ouvi que estava "invadindo a privacidade" de uma mulher por ter mandado pra ela no Instagram um print do match que dei com o namorado dela no Tinder no mesmo dia. Ela disse que fui inconveniente e que com certeza o perfil com o qual dei match era uma conta fake usando fotos dele. Paciência, minha parte eu fiz.


Nós não podemos de nenhuma maneira nos conformar com a inimizade e a rivalidade entre mulheres, muito menos largarmos umas as outras à própria sorte. Precisamos dar murro em ponta de faca. Clarissa Pinkola Estés compararia este ato ao de entregar a chave sangrenta do barba-azul à quem precisa dar uma olhada no quarto secreto.


Isso não é sobre desresponsabilizar o homem por algo que ele supostamente fez: quebrar o contrato emocional, psicológico, afetivo e sexual que estabeleceu voluntariamente com uma sobrevivente grávida. É sobre perceber que tipo de relações entre mulheres estamos naturalizando.


Mulheres TÊM autonomia e capacidade intelectual para discernir entre certo e errado. Nós precisamos, antes de tudo, poder contar umas com as outras.


Nós não podemos contar com os homens, isso é um fato. Mas presumir que tampouco podemos contar com as mulheres é levantar a bandeira branca e aceitar a vitória do patriarcado.

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