Ilustração_Sem_Título (4).png
  • FEMINISA

É preciso ouvir as mulheres vivas

Atualizado: 20 de abr.


No último dia 25, dia internacional do combate a violência contra a mulher, meu único objetivo era levar uma amostra grátis das violências que vivi - e vivo - para dentro da casa de cada pessoa que acessou meu Instagram. Não escrevi textos profundos, nem romantizei minhas dores. Eu queria que a experiência fosse horrível.

Ao final da legenda, uma frase que escrevi foi forte e feia o suficiente para gerar milhares de outros posts: Todo feminicídio é anunciado, mas ninguém está ouvindo as mulheres vivas.

Essa frase quer dizer muitas coisas. Ela resume em poucas palavras diversas pautas extremamente complexas. Aqui vão algumas delas:






  1. O HOMEM BOM E A MULHER RUIM


Todo mundo sabe que tudo que é de homem é bom, e tudo que é de mulher é ruim. Ser homem é bom, ser mulher é ruim. Ser homem é merecer o direito a uma vida honrada e digna, ser mulher é merecer ser estuprada. Partindo daí, fica fácil entender porque o estuprador - ou o agressor - são homens bons que cometeram erros, e a mulher que denuncia a violência praticada pelo homem bom, é uma mulher ruim que destrói vidas.


A conta do restaurante, que garante algum tipo de escambo onde o serviço sexual prestado pela mulher é trocado por um prato de comida, ou entradas para o cinema, é o "homem bom" quem paga. Ele paga porque isso garante a ele o controle sobre a mulher, garante que o serviço comprado será prestado, e se não for, ele irá cobrar a conta. A conta do trauma gerado pelo "homem bom", quem paga é a "mulher ruim" - frequentemente com a própria vida, mesmo que não esteja morta. A "mulher ruim" que OUSA responsabilizar o "homem bom" por seus atos, faz com que, de alguma forma negativamente desproporcional, ele pague essa segunda conta. Por isso, deve ser isolada socialmente, retaliada, difamada, violentada de qualquer forma que faça ela lembrar que o bom é ele, e ela é a ruim.


Mas se a mulher que é vítima da violência masculina é uma "mulher ruim", quem seria a "mulher boa"? A mulher que obedece, que defende, que ama, que respeita, que beija os pés de homens? A mulher que cozinha, lava, passa, faz cirurgias estéticas para estar sempre parecendo uma atriz pornô e está disponível para sexo medíocre 24h?


Um tempo atrás fiz uma enquete perguntando isso às minhas seguidoras: "Se o homem que estupra/agride é um homem bom que cometeu um erro, e a mulher que denuncia é uma mulher ruim que destruiu a vida dele, o que faria um homem ser ruim e o que faria a mulher ser boa?". A resposta no caso do homem é fácil: ser negro. No caso das mulheres, boa parte das respostas afirmava que a mulher boa era a mulher morta - não por acaso, a frase ficou parecida com a "bandido bom é bandido morto" utilizada pelo presidente quando ele, obviamente, refere-se a homens negros exclusivamente.


Infelizmente, nenhuma das respostas que me deram estava correta. Maria da Penha foi julgada no lugar do homem que a tentou matar e deixou paraplégica. Ângela Diniz, como muito bem relata o podcast "Praia dos Ossos", foi julgada no julgamento do homem que a matou. O corpo morto de Caroline Bittencourt foi disputado pelos agentes do Instituto Médico Legal, responsáveis por determinar a causa de sua morte. Caroline morreu afogada, mas ali no IML ela morreu porque é mulher.

A mulher não é boa, e ponto. Nem viva, nem morta. O homem branco é bom de qualquer jeito. O homem negro é ruim se comparado a homens brancos, mas é bom se comparado a uma mulher.


2. A MULHER RUIM É LOUCA


A mulher ”louca” é a mulher que ousou desobedecer. Ela não fez o que tinha que fazer. Ela fez o que não podia fazer. “Louca”. Tem que ser louca mesmo.

A mulher normal é a que segue as regras, respeita as hierarquias. Ela está de acordo com a norma, muito provavelmente por não saber exatamente qual é ela.

Qualquer mulher que conhece a norma, faz de tudo para não ser normal. Por favor, me chamem de ”louca”.

A mulher louca é aquela que o homem não pode controlar, porque ela não tem medo dele. E mesmo que tenha, dá a cara a tapa, o desafia, o enraivece.

A mulher louca é a falha na Matrix, é o produto que saiu com defeito na linha de produção. NÃO ERA PRA SER ASSIM!! Homens normais surtam para provar que mulheres são loucas.


O caso clássico da ”ex louca” fica resumido nisso aqui:


HOMEM NORMAL: Como ousas revelar ao mundo o grande agressor/estuprador/manipulador que eu sou? Você não tem medo das consequências? Não tem medo do que pode acontecer com você, se tornar público aquilo que eu preciso que permaneça no privado, para manter meus privilégios masculinos?


MULHER LOUCA: Tenho, sim. Mas o medo de não proteger suas próximas vítimas, o medo de não honrar as que vieram antes de mim, o medo de ser responsável pela impunidade de mais um homem, é maior.


Mulheres que não se permitem silenciar são inconvenientes, chatas, "treteiras", pesadas.


A mulher louca é um vírus que precisa ser contido, aniquilado, antes que infecte todas as mulheres. Dêem vacina, digam às outras que o vírus é perigoso, que ele te deixa infeliz, que ele faz você perder a aprovacão dos homens, que ele faz com que você nunca mais seja amada. Retaliem o vírus, matem o vírus, faca com que o vírus mate a si mesmo, facam tudo o que for necessário para conter a ameaça.


3. A RAIVA É FEIA


Não, você não pode. Se você é mulher você não pode odiar seu agressor. Isso é feio, não é legítimo. Sinta a raiva, mas guarde ela pra você. Deixe que ela apodreça seus orgãos e até a sua alma, mas nunca, jamais, deixe ninguém saber que ela está aí.

Se você sentir raiva do seu abusador, todo mundo vai saber que você é fraca. Se descobrirem que você é fraca, raivosa, vingativa, você será acusada de querer o mal de um “homem bom”.

Não é normal uma mulher querer justica pra si. Não e normal que uma mulher estabeleça um limite e diga “eu não aceito uma vida com violência“ ou “eu não aceito que meu corpo não seja meu” - favor não confundir essa fala com o famoso “meu corpo minhas regras”, isso aqui é bem diferente.

Não é aceitável que uma mulher obrigue um homem a se responsabilizar pelos próprios atos. Isso é coisa de mulher ruim, é coisa de louca.


4. O ÓDIO NÃO É FEMININO


É proibido odiar, esse sentimento não combina com mulheres. O ódio é forte, é potente, transforma, enraivece e faz mover, isso é coisa de homem. Mulheres devem resolver seus conflitos com amor, com empatia, com generosidade, mesmo que para isso tenham que deixar de lado o verdadeiro sentimento que sentem em relação aos homens. A feminilidade é passiva, a masculinidade é ativa.

Ódio é feio, é pesado, é escuro, mas só se você for mulher. O ódio do homem é legítimo, expressa sua força.

Não odeie, perdoe. Deixe pra lá, siga sua vida, esqueca isso. Se você odiar seu agressor o suficiente para responsabilizá-lo pela agressão, terá que se defender das acusações pelos crimes de ser louca e ruim.



-




Uma seguidora me marcou num post e escreveu: “A mulher consegue se libertar dos abusos, ninguém ouve. A mulher denuncia, todos questionam e duvidam de sua palavra. Ela apresenta provas, consegue entrar com um processo, consegue uma medida protetiva, todos a condenam por querer destruir a vida do cara. A vida da mulher que sofreu qualquer tipo de violência só vale quando ela morre. Aí gera comoção. Enquanto ela pedia ajuda, ninguém quis se meter, proteger, acreditar, dar apoio. E aí ela morreu.”


Outra seguidora me escreveu: “[...] tanto o judiciário quanto a sociedade não estão interessados em sobreviventes. Eles tem sede por vítimas, no sentido devasto da palavra: mulheres silenciadas, amedrontadas, incapazes de enfrentar a violência institucional e social.”


Observo que com frequência são postadas na página oficial do Ministério Público de Santa Catarina (estado onde eu moro) no Istagram, comemorações de sentenças de feminicidas. ‘21 anos”, eles comemoram. “A justica foi feita”. Não, nao foi. a mulher está morta.

Quantas vezes ela pediu socoro até chegar nesse ponto? Quantas medidas protetivas foram indeferidas? Quantas oportunidades de prisão preventiva do assassino foram desperdiçadas, enquanto ele era ~apenas~ um agressor? Quais são os esforços que esses homens, que tão orgulhosamente condenam estupradores e feminicidas, estão empregando para educar a si mesmos e suas comunidades para que feminicidas não existam mais?


Nossa sociedade odeia estupradores, odeia feminicidas, mas tem uma coisa que odeia mais: mulheres. Especialmente aquelas: as loucas.


Não adianta se revoltar com a absolvição de André Aranha, com a violência sofrida por Luisa Mell, com a morte de Mércia Nakashima, se você em algum momento considerou a possibilidade de uma mulher, qualquer mulher, que relata ou denuncia um abuso ser louca. Se em algum momento você considerou a possibilidade de uma mulher ser capaz de inventar que sofreu uma agressão para prejudicar um homem, tenha certeza, o sangue dela está nas suas mãos.


O feminicida não é só o que mata, o estupradoor não é só o que estupra. Esses crimes tem co-autores, e eles são vocês, que não escutam as mulheres enquanto elas estão vivas, e falam por elas quando já estão mortas.






491 visualizações2 comentários

Posts recentes

Ver tudo